HERANÇAS COLONIAS, PROJEÇÕES PATERNAS
Duas visões
Palavras-chave:
Colonialismo; Portugal, Brasil; África; paternidade.Resumo
O projeto artístico-literário do escritor português, António Lobo Antunes (1942), e do autor brasileiro, Milton Hatoum (1952), possuem linhas narrativas que convergem, sobretudo a partir da forma como se valem de seus romances para construir uma hermenêutica narrativa voltada para o exame da condição histórica do sujeito. Nos romances Cinzas do Norte (2005) e Até que as pedras se tornem mais leves que a água (2017) é possível verificar o quanto a herança colonial portuguesa é decisiva para configurar os conflitos que se estabelecem no relacionamento entre pais e filhos, marcado por uma condição opressiva. No texto de Hatoum, ambientado essencialmente na região amazônica brasileira, Mundo é filho de um rico empreendedor de ascendência portuguesa, Trajano Mattoso, com uma mulher nativa, Alícia. Todavia, desde a infância se opõe ao universo aristocrático em que é criado e à opressão paterna, por meio da militância artístico-política, o que leva a sua degradação físico-existencial. A exacerbação da violência e do racismo, representada nas páginas de Até que as pedras se tornem mais leve que a água, revolve as memórias traumáticas da guerra em Angola, a partir da relação de um combatente português. Ao retornar à Lisboa leva consigo, na condição de filho adotivo, uma criança africana que teve a família dizimada em um bombardeio. Isso irá ilustrar, de acordo com a psicanálise freudiana, a compulsão à repetição pelos eventos do passado, que não se apagam das memórias fraturadas destes personagens. Sob um viés comparativo, ao se estabelecer um cotejo entre os romances supracitados, pretendemos verificar como as marcas do colonialismo, tanto no Brasil quanto na África, se imprimem na relação conflituosa entre pais e filhos, para a qual a possibilidade de cura das feridas da memória não se apresenta como um horizonte de expectativa.
Referências
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