QUANDO O AFETO É CIÊNCIA

NARRATIVAS DE MULHERES DO NORTE URBANO E DO QUILOMBO

Autores

  • Amanda Soares Dantas UFPA
  • Leiliane da Conceição Silva Barbosa

Resumo

O artigo discute a potência da escrevivência como gesto epistemológico e político na produção de conhecimento, a partir das narrativas de duas pesquisadoras amazônidas com trajetórias e marcadores sociais distintos: uma mulher branca, oriunda da metrópole paraense, e uma mulher preta e quilombola. O texto se estrutura em relatos de experiência que tensionam os
limites da escrita acadêmica tradicional, frequentemente marcada por exigências de neutralidade e distanciamento, e que, por isso, tendem a silenciar corpo e afeto como dimensões constitutivas da pesquisa. A primeira escrevivência aborda o deslocamento de uma pesquisadora do Norte ao Sudeste, destacando os efeitos da colonialidade e do eurocentrismo na produção científica, bem como a literatura como espaço de reinscrição do corpo e da experiência afetada. A segunda escrevivência narra os desafios enfrentados por uma pesquisadora quilombola no acesso e permanência na educação, evidenciando como racismo, exploração doméstica e desigualdades estruturais impactam sua trajetória acadêmica e social. Ambas as narrativas revelam que as trajetórias individuais se tornam coletivas quando inscritas a partir de memórias, ancestralidade e compromisso com as comunidades de origem. Conclui-se que o afeto, longe de representar ruído para a ciência, pode constituir fundamento ético e político de uma produção acadêmica
situada, capaz de tensionar práticas racistas, machistas e coloniais que ainda moldam a universidade. Assim, as escrevivências apresentadas afirmam a necessidade de uma ciência implicada, enraizada nos territórios e experiências de quem escreve, produzindo conhecimento comprometido com a transformação social.

Downloads

Publicado

2026-02-02