ESCREVIVÊNCIA COMO JUSTIÇA EPISTÊMICA NO ENSINO SUPERIOR
Reflexões a partir de experiências do Projeto IQ-Indígenas e Quilombolas-UFPA/Amazônia-Br
Palavras-chave:
Escrevivência, Política Afirmativa, Ensino Superior, Indígenas, Quilombolas, AmazôniaResumo
Este trabalho se vale de observações realizadas no Projeto “IQ: Conhecimento e Resistência”, destinado ao acompanhamento da aprendizagem de indígenas e quilombolas com ingresso pelas políticas afirmativas na Universidade Federal do Pará. Discute a hegemonia da ciência ocidental na transmissão e produção do conhecimento científico no ensino superior brasileiro, uma vez que seus constructos foram produzidos a partir de estigmas sobre povos e grupos populacionais historicamente subalternizados, como argumenta a intelectual indígena Linda Tuhiwai Smith. A naturalização do epistemicídio apagou suas autorias, reduzindo-os a coisas e a objetos de pesquisa, o modus operandi do colonialismo. A política afirmativa tem forçado as portas da universidade para a entrada dos povos indígenas, quilombolas e população autodeclarada negra. Estes grupos, em seus coletivos estudantis, reivindicam a descolonização das metodologias de ensino e pesquisa, para que a política faça jus às lutas dos seus povos. Este alcance exige a superação de uma escrita esquadrinhada pelas normas técnicas do ocidentocentrismo, regulamentadoras e controladoras do currículo monocultural e fatiado em disciplinas. Tais rupturas só serão possíveis se houver aberturas democráticas para que epistemes outras, e suas respectivas autorias, tenham autonomia na produção do conhecimento fomentada nas instituições de ensino superior, ou seja, autoridade para autodeterminar e demarcar seus territórios de saberes. É o que propõe a Escrevivência, formulada pela intelectual Conceição Evaristo, mulher negra feminista, como metodologia pautada na ressignificação do processo de produção do conhecimento com justiça epistêmica. Não se trata, portanto, de escrita autobiográfica, seu foco está em evocar uma experiência coletiva, principalmente da população afro-brasileira, da diáspora e dos povos subalternizados.
Escrevivência. Política Afirmativa. Ensino Superior. Indígenas. Quilombolas. Amazônia