Convocatória para Dossiê: Laicidade, intolerância religiosa e paganismo

Organizadores:

Francisca Verônica Cavalcante (Universidade Federal do Piauí - UFPI)

Marcos Vinicius de Freitas Reis (Universidade Federal do Amapá - UNIFAP)

Recebimento de textos até: 31 de agosto de 2021

        Este dossiê tem por objetivo reunir pesquisas que discutam processos de laicidade, intolerância religiosa e o fenômeno do paganismo na América Latina e no Brasil onde o campo religioso é formado por uma diversidade religiosa e espiritual cuja dinâmica de aumento ou diminuição de adeptos nas diversas religiões e novas formas de vivenciar a espiritualidade traz à tona um/a interlocutor/a contemporâneo/a que apresenta experiências de práticas e rituais marcadas por sociabilidade e individualismo religioso e, nos servem para pensar as relações de poder estabelecidas entre Estado, religiões e novas formas de vivenciar a espiritualidade. Sabe-se que o fenômeno da laicidade apresenta intrínseca relação com as características históricas e culturais de cada nação onde esse processo se dá imprimindo maneiras de ser, agir, sentir e pensar em seus diferentes contextos.

        Constitucionalmente o Brasil é um país laico. O respeito de ter ou não ter uma religião cabe ao indivíduo fazer esta escolha. O papel do Estado é garantir a liberdade religiosa e a coexistência pacifica entre os grupos religiosos e não religiosos. Na prática não funciona bem assim. Existem grupos religiosos que são marginalizado a respeito das políticas públicas do Estado (quando são feitas) no combate a intolerância religiosa, a exemplo dos grupos identificados com o paganismo.

        Quando fazemos a alusão aos grupos religiosos pagãos é natural serem taxados de “bruxos” ou “demônios” ou outros estigmas sempre associados com a questão do mau. Tais vinculações dificultam que o Brasil tenha tratamento igual a todas as expressões religiosas. Não são raras as situações em que adeptos desta(s) corrente religiosas são apedrejados, perseguidos, insultados, dificuldades de exercerem suas atividades religiosas em locais a céu aberto, as escolas públicas e privadas ensinam de forma pejorativa seus saberes, fora a não atenção das bancadas políticas em prol de suas demandas na defesa da laicidade.

        No tocante a produções acadêmicas ainda são poucos os trabalhos que acerca do universo do paganismo no Brasil e no mundo. E quando falamos de laicidade, intolerância e discriminação pouco conhecemos como estes grupos religosos lidam com isto e vivenciam isto.  A intenção é reunir pesquisas que abordem a temática da intolerância religiosa, isto é, o desrespeito e o acirramento de ataques das igrejas neopentecostais contra as religiões afro-brasileiras, verificados nas últimas três décadas no Brasil e em outros países da América Latina, especialmente Argentina e Uruguai, onde estas religiões encontram-se em processo de expansão. A atenção também se volta para a intolerância relativa às novas formas de vivenciar a espiritualidade, denominadas de religiões pagãs, aquelas que não estão vinculadas a instituições religiosas.

        O paganismo ou o neopanganismo, nome atribuído ao fenômeno relativamente novo ressurgido na sociedade contemporânea, designa a cultura espiritual que lança mão de tradições antigas e novas, centrada na percepção da Terra como sagrada. Ressalta-se a importância de pesquisas sobre paganismo por ser um fenômeno pouco investigado, mesmo nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde o fenômeno é presente desde a era pré-cristã, mas que ganhou maior visibilidade social com o ressurgimento nos anos de 1960. Sabe-se que o paganismo, ou Pagan Studies, nestes países europeus, apresenta uma produção recente extremamente proveitosa.

        No Brasil, os trabalhos publicados se reduzem, em sua maioria, à religião Wicca, uma das religiões deste universo de divindades e poderes mágicos, que alavanca poderosas redes de produtos e serviços na busca incessante pela qualidade de vida, e com uma proposta de nova relação homem-natureza-cultura, diferenciada da relação de dominação vigente no iluminismo. Entretanto, a partir do movimento da contracultura dos anos 1960, o/a fruidor/a do Neopaganismo se autodeclara como um continuador das tradições religiosas dos antigos povos pré-cristãos europeus, particularmente os celtas, gregos, germanos e nórdicos. Mas, ainda tem-se a replicação dessas tradições em religiões pagãs surgidas em anos recentes, em países da América Latina, como no nordeste brasileiro, em que os fruidores fazem uma interconexão do panteão dos antigos povos europeus com povos das Américas, com as práticas rituais do xamanismo dos indígenas americanos e dos povos siberianos.

        Observa-se nas vivências desses espaços pagãos ou holísticos a importância fundamental em seus princípios das seguintes temáticas: Ecologia, Ecofeminismo, a imanência da divindade e a sacralização da natureza. Centrados no autoconhecimento, na questão ecológica e nas experiências místicas. Chama-se atenção para o uso das tecnologias de comunicação que servem de mediação entre adeptos/as, fruidores/as e lideranças religiosas e espirituais de instituições religiosas e espaços holísticos que estabelecem uma mercantilização do sagrado sub-repticiamente sacralizando este mercado. A demanda espiritual e religiosa e seus produtos e serviços aumentam em momentos de crises, observa-se na pandemia do COVID19 em ato, em esfera mundial, o crescimento virtual deste mercado de bens simbólicos.   Assim, incentivamos o envio de contribuições que explorem as referidas temáticas e as possíveis interconexões e aglutinações de saberes e fazeres entre elas com vistas a contribuir para a ampliação do discurso sobre Laicidade, intolerância religiosa e paganismo.

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